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Diario de Pernambuco - Recife - PE
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  • 05 de Junho de 2016 às 03:00

Contraditório

É viável reduzir no curto prazo o consumo de combustíveis fósseis?

05 de Junho de 2016 às 03:00
Da Redação

não

Florival Carvalho - Professor do Departamento de Engenharia Química da UFPE e ex-diretor da Agência Nacional de Petróleo

Ora, ao mesmo tempo, o petróleo é energia e insumo industrial. Sobre esses dois usos, ergueu-se a sociedade do século passado. Dos aviões aos navios, passando por automóveis e caminhões, sem esquecer os trens, quase tudo se move consumindo combustíveis derivados do óleo cru. Em casa, na roupa, na farmácia, na loja de bugigangas, na mercearia, na fábrica, no cinema e no campo é a petroquímica, que revolucionou hábitos, culturas, processos produtivos e a própria ocupação do solo.

A envergadura, sem precedentes quanto ao uso dos derivados, faz do petróleo uma mercadoria especial. Mesmo considerando o sal, o ouro, a prata, o ferro, o carvão, ou ainda o arroz, o trigo, o cânhamo, o algodão e a soja - que muitos usos ganharam ao longo da História -, nenhuma mercadoria consolidou um leque de produtos com tantas utilidades diferentes. E, talvez, exatamente por abastecer necessidades básicas tão distantes - aquecimento, cocção e locomoção, por exemplo - nenhum outro setor repassou tantos ganhos à sociedade.

Nas primeiras décadas do século passado, em razão do acesso aos combustíveis derivados do óleo cru, caiu o custo de vida de maneira significativa. Uma enorme quantidade de famílias se beneficiou da queda generalizada de preços ocorrida nos plásticos, fertilizantes, solventes, detergentes, tintas e no gás de cozinha.

Os hidrocarbonetos (óleo e gás) penetraram em todos os usos energéticos e não energéticos, até mesmo na geração elétrica, na siderurgia e na química. Contudo, entre os usos energéticos, no transporte, em relação aos derivados de petróleo, a dependência é quase completa. Será esse uso, acima de qualquer outro, que pautará a procura da mercadoria ainda pelas próximas décadas.

Os biocombustíveis (álcool e biodiesel) e os demais conseguiram algum espaço, mesmo que marginal, nos últimos dez anos, apenas no transporte terrestre. Foram favorecidos, por um lado, pela política de substituição e, por outro, pela elevação do preço do barril, que perdurou até o terceiro trimestre de 2014. Apesar de tudo favorecer, importa observar o grau de penetração obtido: ele é mínimo, apenas simbólico e, mais grave, inexistente nos demais modais.

Por exemplo, o transporte naval depende do óleo “bunker” e sua demanda não é desprezível; ao contrário, responde por quase quinze por cento de todo o consumo mundial de energia final no transporte. Embora em volume muito menor, o transporte por aeronaves a jato não tem alternativa comercial ao uso do querosene de aviação. A falta de substitutos imediatos preserva a natureza cativa destes mercados e o poder de quem vende petróleo (e derivados). Dos fertilizantes aos combustíveis, do detergente de cozinha a todo tipo de plástico, dos tecidos às tintas, da película de cinema ao insumo farmacêutico, quase tudo deriva de petróleo e gás natural.

Os múltiplos usos asseguraram a posição do petróleo no século passado, mas, na próximas décadas, desde que não ocorram rupturas nas tendências, será o transporte que conduzirá a demanda. A mobilidade das mercadorias e dos indivíduos é uma conquista social e econômica muito longe de ter sido plenamente alcançada e, ainda por algum tempo, será quase exclusivamente dependente dos derivados de petróleo. Por maior que sejam as restrições ambientais e os ganhos de eficiência, a substituição da gasolina, do óleo diesel, do óleo “bunker”, da gasolina e do querosene de aviação está em seu início. Em razão das perdas irrecuperáveis, o custo de substituição seria superado apenas por uma revolução tecnológica; imprevisível a esta altura.

sim

Sérgio Xavier - Secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco

Reduzir as emissões de gases que provocam poluições, aquecimento global e as perigosas mudanças climáticas é o maior desafio imediato da humanidade. A compreensão desta urgência planetária motivou 175 países a assinar, em abril, na sede da ONU, em Nova York, o “Acordo de Paris”, negociado na capital francesa em dezembro passado. A meta é evitar que a temperatura média da Terra suba além de 2º C, para conter catástrofes climáticas e seus graves impactos econômicos, sociais e ambientais.

Estudos já comprovam aumento de 1º C, intensificando as chuvas, as secas, o degelo e elevando o nível do mar. Segundo a NASA, 2016 já é o ano mais quente da história. Portanto, a situação é dramática e exige redução imediata dos gases de efeito-estufa, como o CO2, gerado na queima de combustíveis fósseis (petróleo e carvão).

O Brasil se comprometeu a reduzir suas emissões em 43% até 2030. Isso exigirá reflorestamentos; eficiência na agricultura e na indústria; aumento de energia renovável (solar, eólica, biomassa, marinha e pequenas hidrelétricas) e forte redução de gasolina, diesel e carvão mineral.

Modelos do passado já não servem para nos levar ao futuro. Diante de uma disrupção climática cientificamente anunciada, é preciso inovar. Criar uma nova economia de baixo carbono e gerar muitos empregos, sem aquecer o planeta. É uma grande oportunidade para o Brasil sair da crise atual, redirecionando seu crescimento econômico no rumo da sustentabilidade.

Para reverter este cenário é preciso reequalizar os processos econômicos: reduzir o PIB poluidor e elevar o PIB sustentável, migrando empregos de processos poluidores para processos limpos.

Nesse contexto, é fundamental reinventar e fortalecer a Petrobras, redirecionando sua estrutura, seus qualificadíssimos profissionais, seu conhecimento tecnológico e sua imensa capacidade operacional para rumos inovadores e sustentáveis, não dependentes do Petróleo.

Biocombustíveis, veículos elétricos, rede de postos de abastecimento solar e energia do Hidrogênio são promissores horizontes.

Além de combustíveis, o petróleo produz inúmeros subprodutos que abastecem muitos setores da indústria (plásticos, medicamentos, tintas, tecidos). Portanto, não pode ser ignorado. Ao contrário, exige reformulação inteligente da sua cadeia produtiva, evitando riscos de colapsos e desempregos.

Mas, a substituição dos combustíveis fósseis evoluiu e o Brasil tem vantagens competitivas, com sua indústria de álcool e uma frota de automóveis 70% flex.

Já é possível produzir diversos bioderivados, que antes eram gerados exclusivamente com petróleo. Avança a ideia de converter as antigas refinarias-fósseis em Biorrefinarias, que podem processar madeira e outras matérias florestais e gerar vários produtos substitutos do petróleo. E com o replantio permanente de árvores, recaptura-se o carbono dos biocombustíveis queimados. Outra tecnologia em desenvolvimento é a RTP (Rapid Thermal Processing) que transforma madeira, galhos e resíduos de árvores em bio-óleo com propriedades similares às do petróleo.

Para substituir o petróleo na produção de combustíveis será necessário ampliar a base florestal do planeta, o que incentivaria a recuperação de áreas degradadas, ampliaria a captura de carbono, protegeria a biodiversidade, desenvolveria a biotecnologia, estabilizaria o clima, beneficiaria áreas pobres e em processo de desertificação, como o semiárido brasileiro e africano. Enfim, criaria um modelo de desenvolvimento inclusivo e sustentável que pode ser liderado pelo Brasil.

Pra mover a civilização nesta direção, basta usar combustíveis que a humanidade tem de sobra: imaginação, conhecimento, colaboração....

Que este Dia Mundial do Meio Ambiente inspire a todos nós!

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