Foto: Ana Fonseca
  • DataPernambuco, 15 de Dezembro de 2018
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Sérgio Moro passo a passo: cronologia de uma ação política

01 de Outubro de 2018 às 23:24
Homero Fonseca

 A operação Lava Jato poderia ter sido um importante instrumento para combater a corrupção geral, não fosse o viés ideológico de delegados da PF, procuradores e, sobretudo, do juiz Sérgio Moro. Ele voltou a atacar hoje.

Acompanhem ações e decisões tomadas por Moro e demais protagonistas da Lava Jato ao longo do processo de Lula, que demonstram uma clara estratégia política, atropelando prazos e leis, com o apoio incondicional da mídia:

Novembro de 2014: Moro decreta prisão de Leo Pinheiro, presidente da empreiteira OAS. No pedido de prisão preventiva, o MPF informou que ele estava envolvido “em vários tipos de crimes em contratos da Petrobras, do Metrô de São Paulo e da Arena Fonte Nova”.

05 de agosto de 2015: Pinheiro é condenado pelo juiz Sérgio Moro a 16 anos e 4 meses de cadeia. 

04 de março de 2016: Sérgio Moro decreta a condução coercitiva do ex-presidente Lula para depor, sem qualquer justificativa, apenas nove dias antes das passeatas pró-impeachment marcadas para dia 13.

16 de março de 2016: Depois de a imprensa haver revelado a intenção da presidente Dilma de nomear Lula ministro, Moro divulgou ilegalmente a gravação de conversas entre os dois, inviabilizando a nomeação. O ministro do STF, Teori Zavaski, então relator da Lava Jato no Supremo, considerou publicamente ilegal o vazamento, mas não tomou nenhuma providência.

1º de junho de 2016: A Folha de S. Paulo informa que a delação premiada de Leo Pinheiro, acertada depois de muitas tentativas, “trava após ele inocentar Lula”.

22 de agosto de 2016: O jornal O Globo informa que foi suspensa a delação premiada de Leo Pinheiro.

22 e 26 de setembro de 2016:Moro manda prender duas das mais altas figuras do PT, os ex-ministros Guido  Mantega e Antonio Palocci, às vésperas das eleições de 02 de outubro. 

20 de abril de 2017: Depois de novas tratativas, o presidente da OAS volta a depor e, desta vez, acusa Lula de ser o proprietário do triplex do Guarujá. As referências ao metrô de São Paulo são esquecidas.

12 julho de 2017: Com base nessa segunda delação de Pinheiro, Sérgio Moro condena Lula a 9 anos e 6 meses de prisão.

24 janeiro de 2018: A turma do TRF4, que havia furado a fila de processos colocando o de Lula na frente de 257 outros, confirmou a condenação e aumentou a pena para 12 anos e um mês de prisão.

04 de abril de 2018: O STF nega habeas corpus de Lula, por 6 votos a 5.

5 de abril de 2018: Um dia depois da decisão do STF, o TRF4 autoriza o juiz Sérgio Moro a decretar a prisão de Lula. Dezenove minutos depois, Moro expede o mandado de prisão. A Justiça brasileira, neste caso, deve ter batido o recorde mundial de celeridade.

22 de junho de 2018: TRF4 homologa acordo de delação premiada de Antonio Palocci com a Polícia Federal, que havia sido rejeitado pelo Ministério Público Federal por falta de provas.

08 de julho de 2018: Moro se insurge contra decisão de desembargador que concedeu habeas corpus a Lula e, mesmo de férias, entra em cena para impedir que “seu preso” seja solto.

01 outubro de 2018: Moro, que andava sumido, volta à tona e, sem justificativa convincente, libera parte da delação de Palocci que incrimina Lula e o PT, faltando seis dias para as eleições.

Conforme demonstramos, há um padrão nos movimentos do juiz-justiceiro de Curitiba: influir nas mobilizações e nas eleições, de modo a prejudicar um determinado político e o seu partido, caracterizando o viés político-partidário-ideológico de suas decisões.


O Grande Dilema

19 de Setembro de 2018 às 12:16
Homero Fonseca

Uma curiosidade: como se posicionarão certas pessoas diante de um segundo turno Bolsonaro x Haddad?

É lugar-comum entre os analistas da atual campanha eleitoral dizer que “tudo pode acontecer”. E é verdade.

Entretanto, neste momento, pelo andar da carruagem, está se configurando um segundo turno entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad.

E diante do clima radicalizado e irracional prevalecente, em que o PT foi demonizado pela mídia há anos – no que o próprio partido ajudou, com seus erros consideráveis – fico curioso sobre como se posicionarão:

1 – Os liberais clássicos que, sinceramente ou da boca pra fora, abominam o totalitarismo encarnado na figura do capitão.

2 – Os intelectuais “isentos” que utilizam metáforas ambíguas e sobre os quais paira a dúvida razoável se não serão direitistas enrustidos.

3 – Os ex-comunistas que têm vergonha de se assumirem neoliberais e direitistas.

 

Lições das letras

16 de Maio de 2018 às 12:40
Homero Fonseca

Foto: Ana Fonseca Zoom

 

 Nas minhas

longas andanças

de leitor,

aprendi duas

ou três coisas:

 Todo escritor é um domador de palavras: tira-as do estado bruto de dicionário e ensina-as a dizer o mundo.

Um romancista inventa vidas e nos convence a viajar nelas.

Poeta é quem come música, vê o vento, ouve as pedras, cheira emoções, apalpa sentimentos.

Autor da 2ª divisão cita; autor da 3ª divisão cita muito; autor da 1ª divisão é citado.

Calendas de abril (I) - O golpe que não queria ser chamado de golpe

02 de Abril de 2018 às 22:22
Homero Fonseca

Foto: José Belém / O Cruzeiro Zoom
Marechal Castelo Branco toma posse cercado de líderes civis e militares

A narrativa dos vencedores, civis e militares, negava veemente que fosse um golpe.

O fato é que, num dia como hoje, em 1964, o golpe civil militar estava consolidado.

O presidente João Goulart havia seguido para o Rio Grande do Sul e o Congresso declarou vaga a presidência da República. Essa espécie de impeachment de Jango ocorreu em nome do combate ao comunismo e à corrupção.

Havia sido precedido de intensa e histérica campanha da imprensa, pregando sua deposição. Intoxicada pela mídia, grande parcela das classes médias havia ido às ruas em passeata nas famosas “Marchas da Família, com Deus pela Liberdade”. O empresariado conspirava nos quartéis, nas caladas da noite. O golpe estava em gestação desde que Goulart, um grande fazendeiro gaúcho herdeiro político de Getúlio Vargas assumira em 1961 e tentava implementar um programa de reformas populares, apoiado pelas esquerdas. O Governo dos Estados Unidos, por meio do embaixador Lincoln Gordon, respaldou a sublevação, primeiro financiando candidatos e movimentos oposicionistas e mantendo estreito contato com os conspiradores; depois deslocando parte de sua poderosa frota do Caribe para o litoral brasileiro, a fim de intervir, se houvesse necessidade. Dia 2 de abril os conservadores brasileiros de todos os matizes estavam eufóricos: a mídia cantava vitória e disseminava a narrativa de que não houve golpe, mas uma revolução. Bispos e padres conservadores celebravam missas de ação de graças para senhoras ricas. Policiais, soldados e jagunços a serviço de latifundiários e industriais prendiam e arrebentavam comunistas e esquerdistas em geral, sindicalistas, estudantes, operários e camponeses.

Isso tudo é história: os militares gostaram do poder, descartaram os líderes civis da insurreição (Carlos Lacerda, Magalhães Pinto et caterva), cancelaram eleições, mandaram a democracia às favas, ficaram no governo por 21 anos e aplicaram um programa neoliberal que “modernizou” a economia (incluindo a infraestrutura) e agravou dramaticamente os problemas sociais brasileiros.

Estavam as Forças Armadas unidas e perfilhadas em torno de um ideal único pela grandeza do Brasil? A paz reinou entre nós, a subversão foi varrida e a corrupção eliminada? Respostas no próximo post, na voz de um dos principais protagonistas do golpe.

 

Os tiros na caravana e a bomba do Rio Centro

31 de Março de 2018 às 18:47
Homero Fonseca

Zoom
30/04/1981: bomba explode dentro do carro de dois militares do DOI-CODI

Os dois casos têm em comum a tentativa de construir uma narrativa colocando a vítima no lugar do criminoso, velha tática nazista.

Bolsonaristas, autoridades paranaenses, fascistoides de todas as gradações, blogueiros direitistas e ex-esquerdistas arrependidos não perderam um minuto para atribuir ao próprio PT (ou MST) a autoria do atentado a tiros, dia 27 de março, contra a caravana de Lula no Paraná. Sem nenhuma evidência, sem sequer haver começado a investigação, colocaram no ar sua narrativa tosca. Velha tática nazista de por a culpa nos judeus, isto é, de fazer da vítima o criminoso.

O delegado de plantão Wilkinson Fabiano Oliveira de Arruda foi ao local do atentado no mesmo dia e classificou o incidente como “tentativa de homicídio”. Foi de imediato afastado do caso pelo governador Beto Richa que, politizando a investigação, chamou o policial de “esquerdopata” (xingamento típico da direita raivosa).

O inquérito, agora sob a direção de um delegado da confiança do governador, deverá ter seu resultado divulgado pelo jornalista Karlos Eduardo Antunes Kohlbach, assessor de imprensa da Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná. Ele também atua como assessor de imprensa informal do comitê de campanha do deputado Jair Bolsonaro (PSL) em Curitiba. Dá pra confiar nesse inquérito?

Os fatos lembram o célebre atentado do Rio Centro, na noite de 30 de abril de 1981, quando se realizava um show pelo 1º de Maio, assistido por 20 mil pessoas. Era plena ditadura militar e uma bomba explodiu no colo do sargento Guilherme do Rosário, no Puma de propriedade e conduzido pelo capitão Wilson Machado. O sargento morreu e o capitão ficou gravemente ferido. Os dois militares eram agentes do famoso DOI-CODI do I Exército. Dez minutos depois, uma outra bomba foi jogada na subestação de energia daquele centro de convenções e explodiu, sem, no entanto, provocar o curto-circuito esperado.

Tivesse sido bem sucedido o plano, as consequências teriam sido catastróficas. O coronel Luís Antônio do Prado Ribeiro começou a investigar o atentado e logo foi afastado. Em seu lugar, assumiu o coronel Job Lorena de Sant’Anna, que já no dia seguinte à explosão fôra ao enterro do sargento Rosário e feito um discurso chamando-o de vítima de um ato terrorista da esquerda. Em seu relatório, sustentou a versão que assumira previamente: o atentado foi coisa dos petistas, digo, dos comunistas. Investigações posteriores e declarações do coronel Prado Ribeiro revelaram ter sido um plano da ala mais à direita do Exército para culpar a esquerda e detonar a abertura política. A História se repetirá como farsa? (Mesma pergunta se aplica ao caso da morte da vereadora Marielle Franco.)

 

 

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