Foto: Ana Fonseca
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Lições das letras

16 de Maio de 2018 às 12:40
Homero Fonseca

Foto: Ana Fonseca Zoom

 

 Nas minhas

longas andanças

de leitor,

aprendi duas

ou três coisas:

 Todo escritor é um domador de palavras: tira-as do estado bruto de dicionário e ensina-as a dizer o mundo.

Um romancista inventa vidas e nos convence a viajar nelas.

Poeta é quem come música, vê o vento, ouve as pedras, cheira emoções, apalpa sentimentos.

Autor da 2ª divisão cita; autor da 3ª divisão cita muito; autor da 1ª divisão é citado.

Calendas de abril (I) - O golpe que não queria ser chamado de golpe

02 de Abril de 2018 às 22:22
Homero Fonseca

Foto: José Belém / O Cruzeiro Zoom
Marechal Castelo Branco toma posse cercado de líderes civis e militares

A narrativa dos vencedores, civis e militares, negava veemente que fosse um golpe.

O fato é que, num dia como hoje, em 1964, o golpe civil militar estava consolidado.

O presidente João Goulart havia seguido para o Rio Grande do Sul e o Congresso declarou vaga a presidência da República. Essa espécie de impeachment de Jango ocorreu em nome do combate ao comunismo e à corrupção.

Havia sido precedido de intensa e histérica campanha da imprensa, pregando sua deposição. Intoxicada pela mídia, grande parcela das classes médias havia ido às ruas em passeata nas famosas “Marchas da Família, com Deus pela Liberdade”. O empresariado conspirava nos quartéis, nas caladas da noite. O golpe estava em gestação desde que Goulart, um grande fazendeiro gaúcho herdeiro político de Getúlio Vargas assumira em 1961 e tentava implementar um programa de reformas populares, apoiado pelas esquerdas. O Governo dos Estados Unidos, por meio do embaixador Lincoln Gordon, respaldou a sublevação, primeiro financiando candidatos e movimentos oposicionistas e mantendo estreito contato com os conspiradores; depois deslocando parte de sua poderosa frota do Caribe para o litoral brasileiro, a fim de intervir, se houvesse necessidade. Dia 2 de abril os conservadores brasileiros de todos os matizes estavam eufóricos: a mídia cantava vitória e disseminava a narrativa de que não houve golpe, mas uma revolução. Bispos e padres conservadores celebravam missas de ação de graças para senhoras ricas. Policiais, soldados e jagunços a serviço de latifundiários e industriais prendiam e arrebentavam comunistas e esquerdistas em geral, sindicalistas, estudantes, operários e camponeses.

Isso tudo é história: os militares gostaram do poder, descartaram os líderes civis da insurreição (Carlos Lacerda, Magalhães Pinto et caterva), cancelaram eleições, mandaram a democracia às favas, ficaram no governo por 21 anos e aplicaram um programa neoliberal que “modernizou” a economia (incluindo a infraestrutura) e agravou dramaticamente os problemas sociais brasileiros.

Estavam as Forças Armadas unidas e perfilhadas em torno de um ideal único pela grandeza do Brasil? A paz reinou entre nós, a subversão foi varrida e a corrupção eliminada? Respostas no próximo post, na voz de um dos principais protagonistas do golpe.

 

Os tiros na caravana e a bomba do Rio Centro

31 de Março de 2018 às 18:47
Homero Fonseca

Zoom
30/04/1981: bomba explode dentro do carro de dois militares do DOI-CODI

Os dois casos têm em comum a tentativa de construir uma narrativa colocando a vítima no lugar do criminoso, velha tática nazista.

Bolsonaristas, autoridades paranaenses, fascistoides de todas as gradações, blogueiros direitistas e ex-esquerdistas arrependidos não perderam um minuto para atribuir ao próprio PT (ou MST) a autoria do atentado a tiros, dia 27 de março, contra a caravana de Lula no Paraná. Sem nenhuma evidência, sem sequer haver começado a investigação, colocaram no ar sua narrativa tosca. Velha tática nazista de por a culpa nos judeus, isto é, de fazer da vítima o criminoso.

O delegado de plantão Wilkinson Fabiano Oliveira de Arruda foi ao local do atentado no mesmo dia e classificou o incidente como “tentativa de homicídio”. Foi de imediato afastado do caso pelo governador Beto Richa que, politizando a investigação, chamou o policial de “esquerdopata” (xingamento típico da direita raivosa).

O inquérito, agora sob a direção de um delegado da confiança do governador, deverá ter seu resultado divulgado pelo jornalista Karlos Eduardo Antunes Kohlbach, assessor de imprensa da Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná. Ele também atua como assessor de imprensa informal do comitê de campanha do deputado Jair Bolsonaro (PSL) em Curitiba. Dá pra confiar nesse inquérito?

Os fatos lembram o célebre atentado do Rio Centro, na noite de 30 de abril de 1981, quando se realizava um show pelo 1º de Maio, assistido por 20 mil pessoas. Era plena ditadura militar e uma bomba explodiu no colo do sargento Guilherme do Rosário, no Puma de propriedade e conduzido pelo capitão Wilson Machado. O sargento morreu e o capitão ficou gravemente ferido. Os dois militares eram agentes do famoso DOI-CODI do I Exército. Dez minutos depois, uma outra bomba foi jogada na subestação de energia daquele centro de convenções e explodiu, sem, no entanto, provocar o curto-circuito esperado.

Tivesse sido bem sucedido o plano, as consequências teriam sido catastróficas. O coronel Luís Antônio do Prado Ribeiro começou a investigar o atentado e logo foi afastado. Em seu lugar, assumiu o coronel Job Lorena de Sant’Anna, que já no dia seguinte à explosão fôra ao enterro do sargento Rosário e feito um discurso chamando-o de vítima de um ato terrorista da esquerda. Em seu relatório, sustentou a versão que assumira previamente: o atentado foi coisa dos petistas, digo, dos comunistas. Investigações posteriores e declarações do coronel Prado Ribeiro revelaram ter sido um plano da ala mais à direita do Exército para culpar a esquerda e detonar a abertura política. A História se repetirá como farsa? (Mesma pergunta se aplica ao caso da morte da vereadora Marielle Franco.)

 

 

Eles e nós

27 de Março de 2018 às 09:56
Homero Fonseca

Foto: Guilherme Santos - Site Sul21) Zoom
Fazendeiro gaúcho açoita militante durante caravana de Lula

 

Os conservadores se arrepiam com a expressão "Nós e eles", como se não existissem profundas divisões de classe no Brasil, como se fôssemos um povo em congraçamento.

A foto diz tudo. 

"Eles" são o fazendeiro gaúcho que chicoteou em praça pública, como num pelourinho, um trabalhador que foi participar da Caravana do Lula.

"Eles" são seus comparsas, ruralistas ricos, brancos de sobrenomes alemães e italianos, que tentaram impedir a caravana manejando tratores como tanques de guerra.

"Eles" são os moradores das casas-grande, donos de "gado e gente".

"Eles" são os homens de bem.

"Eles" são nazifascistas.

"Eles" querem andar armados.

Os filhos deles consomem a cocaína que gerou o tráfico nos morros do Rio.

"Eles" mataram Marielle Franco.

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Atualização em 26/03/2018:

Um amigo perguntou se eu sabia a identidade do agressor. E uma amiga ponderou que nem todo gaúcho é fascista. Então respondo aos dois, em conjunto:

Não procurei identificar o agressor porque achei que, mais importante do que individualizar, seria interpretar a cena como simbólica. O fazendeiro de chicote em punho representa, nessa visão, os grandes estancieiros do sul, os senhores de engenho do nordeste, os latifundiários cafeicultores do sudeste, os rentistas, os banqueiros-agiotas, os industriais aliados ao capital internacional, os grandes proprietários, enfim, a classe dominante.

Claro que nem todo gaúcho é fascista, muito pelo contrário. Nem aquele chicoteador específico tem necessariamente um filho envolvido com tráfico de droga ou esteja implicado diretamente no assassinato de Marielle Franco.

 

Tomei-o como o mais perfeito exemplo de uma categoria social ampla, caracterizada pela prepotência, arrogância, poder, impunidade e desprezo pelos mais fracos, pelos oprimidos, pelos pobres. É o que captou a foto.

E por isso ela é emblemática e ficará para a história como um flagrante da nossa elite. É uma foto icônica, como aquela do rapaz sendo agredido por um PM com cassetete em passeata estudantil no Rio (1968), a do general sul-vietnamita executando com um tiro na cabeça um vietcong nas ruas de Saigon (1968) ou a do garotinho sírio afogado numa praia da Turquia (2015).

Gilberto Freyre, feminista em 1930

19 de Março de 2018 às 23:19
Homero Fonseca

Foto: http://www.elfikurten.com.br/2012/02/gilberto-freyre.. Zoom
Gilberto e Magdalena posam numa rede

Em julho de 2013, numa das mesas do Festival de Inverno de Garanhuns, ao lado do saudoso Fernando Mota Lima, abordei o tema “Gilberto Freyre e as mulheres”, dando ênfase a certas posições que podemos chamar de pioneiramente feministas do autor de Casa-grande& senzala (1933) e Sobrados & mucambos (1935). Baseei minha fala  no texto da antropóloga Fátima Quintas A presença da mulher na obra de Gilberto Freyre. Fátima começa dizendo: “Descubro um Gilberto aliado ao feminino. Freyre, alma feminina”.

Nas suas obras seminais, Freyre denuncia contundentemente o machismo patriarcal brasileiro (pernambucano em particular), escancarando a origem de muitas de suas permanências em pleno século 21.

Recupero as anotações com citações literais do texto de Fátima Quintas, por sua vez impregnado da escrita de Gilberto Freyre:

 “O passado patriarcal encobriu a mulher ou dela fez um objeto tão delicado que a ‘escanteou’ da cena principal com o intuito de resguardá-la num isolamento árabe.

O corpo escravo para o eito, o pênis lusitano para o prazer -, sinalizaram dicotomias fortalecidas por uma engrenagem a serviço do domínio europeu”.

“A mulher branca, apesar das regalias peculiares ao status superior -- e não foram poucas! --, sentiu-se abafada nas potencialidades existenciais. A índia sufocou os desejos étnico-culturais, quase totalmente usurpados pela mão enérgica do absolutismo açucareiro e da virtuose jesuítica. O sistema a nublou, embora a sua contribuição tenha sido mais valiosa do que a do homem indígena. A negra, pela desfavorável condição de escrava, invalidou-se passivamente diante das nefandas influências do regime: a grande vítima do aparelho patriarcal”.

  “As mulheres firmavam laços matrimoniais muito cedo, ainda verdes de juventude, aos 12, 13, 14 anos. E com maridos 10, 15, 20 anos mais velhos. Sisudos, circunspectos, empavonados de tantas magnificências. Bigodudos -- os homens sempre usavam barbas e bigodes no período colonial, sendo durante muito tempo adereço significativo de virilidade”.

“Com filhas de 15 anos em casa, já era hora de rezar para Santo Antônio. Antes dos 20 anos estava a moça solteira. Nada pior do que uma filha encalhada, a chorar o seu malfadado destino”.

“Conclamada à tarefa de fecundar, a mulher viveu à margem do poder, acanhada num analfabetismo discriminador: o Brasil de ontem, por exemplo, foi um Brasil sem diários de mulher, o que em muito dificultou o seu estudo, queixa-se Freyre. Creio que não há no Brasil um só diário escrito por mulher. Nossas avós, tantas delas analfabetas, mesmo quando baronesas e viscondessas, satisfaziam-se em contar os segredos ao padre confessor e à mucama de estimação”.

             “À exploração da mulher pelo homem, característica de outros tipos de sociedade ou de organização social, mas notadamente do tipo patriarcal-agrário – tal como o que dominou longo tempo no Brasil – convém a extrema especialização ou diferenciação dos sexos. Por essa diferenciação exagerada, se justifica o chamado padrão duplo de moralidade, dando ao homem todas as liberdades do gozo físico do amor e limitando o da mulher a ir para a cama com o marido, toda a santa noite que ele estiver disposto a procriar. Gozo acompanhado da obrigação, para a mulher, de conceber, parir, ter filho, criar menino.”

“A extrema diferenciação e especialização do sexo feminino em “belo sexo” e “sexo frágil” fez da mulher de senhor de engenho e de fazenda e mesmo da iaiá de sobrado, no Brasil, um ser artificial, mórbido. Uma doente, deformada no corpo para ser a serva do homem e a boneca de carne do marido”.

“Quando a verdade é que a especialização de tipo físico e moral da mulher, em criatura franzina, neurótica, sensual, religiosa, romântica, ou então, gorda, prática e caseira, nas sociedades patriarcais e escravocráticas, resulta em grande parte dos fatores econômicos, ou antes, sociais e culturais, que a comprimem, amolecem, alargam-lhe as ancas, estreitam-lhe a cintura, acentuam-lhe o arredondado das formas, para melhor ajustamento de sua figura aos interesses do sexo dominante e da sociedade organizada sobre o domínio exclusivo de uma classe, de uma raça e de um sexo”.

“À derrota histórica da mulher, como se pode deduzir, Freyre reagiu vigorosamente. Entendeu-a como resultado de distorções sugadas da ação discriminadora do sexo já antecipadamente apelidado de frágil. A mulher ressurge, na análise freyriana, de um vazio antropológico injustificado, um silêncio lamentavelmente validado pela omissão de estudos que não a contemplaram. Ignorada durante séculos, o seu papel, estranhamente esquecido, é resgatado ainda na década de 30 pelo escritor pernambucano. Mesmo no ostracismo, a voz feminina não se cansou de balbuciar uma ode muda. A obra de Gilberto Freyre resulta numa bela partitura de feminilidade. De exaltação à mulher. De brinde à sua inarredável vontade de existir”.

 

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